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Encontro de Pentecostes
10 de Maio de 2017 >

Cúpula da capela dos mártires do Uganda (1886) - Namugongo © Sónia Monteiro

Cúpula da capela dos mártires do Uganda (1886) - Namugongo

 © Sónia Monteiro


-Encontro de Pentecostes-

 

No dia 3 de Junho de 2017, no centro do Graal na Golegã, realizou-se um Encontro Nacional durante o tempo litúrgico de Pentecostes, como é hábito a cada ano.

Para este momento de reflexão, convidámos Luís Moita, um amigo do Graal de longa data que, no seu próprio dizer, se sentia verdadeiramente em casa e na certeza de que o entendimento seria real porque as linguagens eram comuns.

O Graal colocou a questão de como viver o Pentecostes face às convulsões do mundo e às incertezas que experimentamos; Luís Moita trouxe com ele “umas ideias alinhavadas para uma reflexão conjunta” e o desafio de implicar as comunidades cristãs no mundo das incertezas.

 Como ponto de partida e citando S. Tomás de Aquino “o nosso Deus é uma relação consistente” isto é, a Sua própria substância é o ser relacional de Pai para Filho e de Filho para Pai unidos pelo Espírito Santo e que, longe de serem essências paradas, antes nos falam de energias em movimento que nos fazem existir. A nossa existência, à semelhança da Trindade, porque em tudo fomos criados à Sua imagem e semelhança, faz-se também, e sempre, pela relação já que ninguém pode ser completamente sem o ser pela relação com o outro. Estamos assim, indelevelmente ligados uns aos outros tanto quanto ao nosso Deus. O Espirito Santo habita-nos e é na certeza de que somos templo do Espírito Santo que nos apresentamos na incerteza do mundo.  

 O paradigma das nossas sociedades continua a ser a relação com o outro contudo, movendo-se no difícil paradoxo entre a cultura do individuo e o desejado universalismo, num tempo de muitas diásporas.

 O que são as diásporas do nosso tempo? Seja quais forem os motivos destas diásporas, muitas delas trágicas, existe nelas a tentativa do universalismo, uma tentativa de unificação do género humano. Com os avanços na tecnologia da informação, hoje em dia, a nossa singularidade está absolutamente ligada à “conectividade” o que nos põe permanentemente na relação. No entanto esta dimensão tecnológica da informação, na qual damos os primeiros passos e para a qual ainda não sabemos ainda fazer uma síntese, é, pela primeira vez na História, massiva, interativa e instantânea. Isto gera uma realidade muito estranha porque convive em simultâneo uma sociedade real e uma virtual, que não deixa de ser real mas que ainda não dominamos – é muito nova e muito descompassada com a realidade humana. Geram-se e acentuam-se desencontros e dualidades entre as duas realidades pois a realidade natural tem que se apoiar numa realidade ainda sem regras que poderá estar a levar à crise das instituições e a uma dualidade de registos sociais que põem a hipótese de uma rutura do sistema internacional, dada a disfuncionalidade de muitas das suas instituições. E isto gera muitas e grandes incertezas.

 Qual pode ser o papel das comunidades cristãs nesta situação da incerteza; como é que o nosso corpo, templo do Espírito Santo poderá conviver com esta realidade? Sem pretensões a uma solução, Luís Moita lançou um grande e responsável desafio – o nosso contacto com a fé, a nossa realidade de crentes é em si uma realidade muito inquietante porque o nosso Deus está presente sob a forma de ausência (Simone Weil) – e , citando S. Gregório de Niza, a recompensa de quem O encontra é a alegria de O procurar. O cristão é por si um buscador. Vivendo, como sabemos, tempos de incerteza, quando acreditamos num Deus que se faz presente a partir da Sua ausência, estaremos melhor apetrechados para a busca? Para pisar terreno incerto mantendo a fé? A partir dos saltos de fé a que estamos acostumados, poderemos ser nós o sal da terra para o mundo?

É com estas questões que Luís Moita nos deixa e o enorme e responsável desafio de ser templo do Espírito Santo em terreno movediço mas que nunca pode ser encarado nem vivido sem a esperança que o próprio Deus nos ensina quotidianamente.

                                                     Xana Lisboa